Katabasis Marginalia 📖

[pt-BR] Sociedade do cansaço, de Byung-Chul Han

Essa leitura demorou um pouco mais do que eu gostaria, mas é totalmente compreensível. O texto não é fácil e a falta de domínio do assunto deixou claro pra mim que eu ia precisar ler mais de uma vez, que foi justamente o que fiz. Li uma primeira vez apenas para entender do que se tratava o livro e na segunda vez, demorei quase o triplo fazendo: rascunhos, seleções textuais, pesquisas (tanto para entender o significado de palavras quanto de outras obras dos autores enunciados).

A sociedade do cansaço é um ensaio escrito por Byung-Chul Han, um filósofo teuto-germânico, que discorre sobre temas como: depressão, burnout, mídias sociais, cansaço, transparência, entre outros. O livro aborda como tema principal a falta de negatividade no mundo atual e como o excesso de positividade é o maior detrator hoje nas doenças psíquicas que afligem a população no século 21. E é muito interessante ver como ele aborda esse tópico e começa a montar a sua argumentação. De início, ele faz uma comparação com o sistema imunológico do corpo. Um sistema o qual não diferencia o certo do errado, mas olha a partir de um espectro da estranheza.

[…] pela defesa, afasta-se tudo que é estranho. O objeto da defesa imunológica é a estranheza como tal.

E para se ter essa estranheza, a negatividade e a peça fundamental. Pois em um mundo positivo, não há nenhum pressuposto de inimizade, de estranheza. A tudo posso, porque tudo me convém. E “poder”, no sentido de verbo, é a chave aqui. Por pensar que existe a possibilidade ou a capacidade de realizar algo, acreditamos nisso. E o autor aborda esse tema como uma nova forma de violência.

[…] A positivação do mundo faz surgir novas formas de violência.

[…] A violência da positividade não pressupõe nenhuma inimizade. Desenvolve-se precisamente numa sociedade permissiva e pacificada. Por isso ela é mais visível que uma violência viral.

[…] A violência da positividade não é privativa, mas saturante; não excludente, mas exaustiva. Por isso é inacessível a uma percepção direta.

Mais para frente no livro, ele faz um comparativo já um pouco mais voltado para sociologia, dizendo que a sociedade do século XXI não é mais uma sociedade disciplinar, mas sim uma sociedade do desempenho. Ou seja, deixamos de ser “sujeitos de obediência” e passamos a ser “sujeitos de produção”.

[…] A sociedade disciplinar está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados.

E pra mim, esse capítulo é uma das melhores partes do livro, pois reafirma a ideia de que só somos depressivos porque acreditamos que nada é impossível. Além disso, ele critica fortemente o capitalismo e neoliberalismo, ainda trazendo a tona o problema do excesso de positividade. Hoje, o trabalhador vive uma autoexploração. Essa consegue ser mais eficiente que uma exploração do outro (que era o que acontecia na sociedade disciplinar), pois essa autoexploração caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade.

[…] O explorador é ao mesmo tempo o explorado.

O livro também toca em outras temas e o próprio autor critica e traz contra ponto a afirmações de outros autores, afinal, é um ensaio. Por ser uma leitura um tanto chata e em até certo ponto, difícil, não sei se consigo recomendar. Mas para mim, se tornou uma leitura proveitosa de toda forma.